Gente, li no jornal Destak do dia 26 de janeiro de 2010 ( eu sei, tem um tempinho já...) uma coluna do Fábio Santos sobre esta questão: adotar ou não uma criança do Haiti. Gostei muito e achei que valia a pena comentar.
A questão central que o Fábio coloca, aliás com muito pertinência, é porque será que as pessoas entraram nessa de adotar uma criança do Haiti após o terrível terremoto deste ano. Olhando de relance nos parece mais do que justo, podendo até ser considerado um nobre gesto, mas ele nos questiona: porque não adotar uma criança brasileira? Porque se compadecer do sofrimento dos que moram longe e não se compadecer dos que sofrem à sua porta, no seu próprio país? Será que haveria uma prioridade de necessidade de adoção das crianças de lá e não daqui?
Fábio levanta que os argumentos mais ouvidos por aí dizem respeito à situação traumática dessas crianças que perderam tudo e todos, mas será que ser afastado de sua cultura e ter que aprender uma nova língua e ser afastado de tudo e todos que sempre conheceu para ser lançado num novo mundo totalmente desconhecido é a solução?
Fábio nos indaga se toda esta situação é pior do que a fome, a sede, o abandono das crianças brasileiras, destinadas à orfandade e a miséria.
A resposta para a questão do Fábio me parece residir em um aspecto específico: a razão pela qual adotar uma criança haitiana ou brasileira, não passa pelo fato desta criança estar vivendo em miséria absoluta. Afinal, todos sabemos que o Haiti é um país pobre com miséria extrema, e nem por isso as pessoas pensaram em adotar uma criança haitiana por esta razão. Gil e Caetano já diziam: "O Haiti é aqui", denunciando nossas semelhanças com eles. Mas isso nunca foi razão suficiente.
Ninguém tá nem aí se as crianças passam fome, aqui ou no Haiti. A preocupação vem de uma perversa duplicidade: de uma identificação com as vítimas de um desastre natural, que não escolhe vítimas por cor ou classe social, o que nos leva a um se dar conta de nossa própria finitude e fragilidade e me arrisco a afirmar, um status proveniente do modismo de adotar crianças de países menores e sofridos, visto os exemplos de Madonna e Angelina Jolie.
Espero que essa mentalidade possa mudar ou a indiferença com a pobreza e o sofrimento alheio dela decorrente continuarão trazendo consequências sérias para a nossa sociedade, como a perpetuação de uma lógica discriminatória contra crianças pobres e principalmente negras que continuam orfãs de pai, de mãe e de pátria.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Polícia no DF
Outro dia fiquei pasma assistindo uma matéria na TV sobre a truculência da polícia no DF. Esperei uns dias pra me recompor e mesmo assim este espaço certamente não será suficiente para comentar, afinal, há situações que devem ser conversadas, pessoalmente, e para isso, as tecnologias não dão conta. Mas vamos deixar as tecnologias para outro dia.
A polícia do DF é a mais bem paga do país e isso torna o quadro ainda mais assustador. Muitas pessoas inteligentes e outras nem tanto, alegam que os baixos salários da polícia aqui no Rio e em outros lugares contribui para o que vivemos hoje: uma polícia corruptível, violenta, despreparada. Sim. Acredito que contribua, mas tenhamos cuidado com essas afirmações vazias e superficiais.
Esta matéria ilustra bem que o buraco é mais embaixo. Como a polícia mais bem paga pode ser a mais truculenta? Isso não iria contra os argumentos que estamos exaustos de ouvir e repetir? Será que é o contrário? Acho que isso nos ajuda a ver o que há de político nisso tudo. A força policial, bem sabemos, não está aqui para servir à comunidade e ajudar velhinhas indefesas. Sua função social é de manter a ordem. Ordem e progresso! Diz a bandeira. Choque de ordem! Diz o prefeito.
Mais do que regular costumes sociais, a polícia, o discurso da impunidade e os palanques sobre a questão da segurança pública, pretendem exercer um controle social sobre os costumes, e não só sobre eles. E não deve ser à toa que o fazem muito bem no DF, ainda mais em Brasília.
Vi cenas da polícia reprimindo - sim, a palavra é essa - reprimindo manifestações estudantis em Brasília com uso de violência. Eu digo de novo: violência é o nome e não truculência. Parece que a TV quer ser gentil com a polícia ou também tem medo de levar porrada, e diz que são truculentos. Se fossem "bandidos", "marginais", como diz a polícia, certamente os nomeariam como violentos. Mas a polícia quando pratica algum crime (enquanto instutuição, de farda e tudo. não estou falando de casos isolados praticados por policiais), não é considerada marginal.
Voltando ao controle social, a repressao sofrida por esses estudantes é antes de tudo política. É um cala a boca. Parece que voltamos ao golpe militar. ou melhor, não parece, porque hoje as pessoas praticamente não fazem manifestações e o que reivindicam não é tanto quanto antigamente...pode ser só um reitor corrupto ou algum figurão do planalto central. As lutas são outras mas a porrada continua e hoje é mais efetiva porque cala as bocas e cessa os pensamentos. Então, seguimos como marionetes nas paisagens urbanas, tendo medo dos meninos pobres, acreditamos que a ameaça vem dali. Pedimos policiamento nas ruas, prisão, segurança pública. Acreditamos que a punição é o melhor remédio. Execramos os que erram, somos inflexiveis e como os cavalos permitimos que nos botem ferraduras para dançarmos conforme a música e antolhos para não vermos o que querem esconder.
Ainda bem que ainda não acreditamos nessa lógica da punição dentro de casa ne? Ou vamos deixar de educar, amar, assistir, respaldar e acolher nossos filhos quando erram e tratá-los com práticas punitivas? Cinto? Chinelo?
É importante a gente falar sobre isso e pensar sobre isso....Choque de ordem? Câmeras de monitoramento nas ruas? Será essa a solução para o mal estar que vivemos nos dias de hoje??
A polícia do DF é a mais bem paga do país e isso torna o quadro ainda mais assustador. Muitas pessoas inteligentes e outras nem tanto, alegam que os baixos salários da polícia aqui no Rio e em outros lugares contribui para o que vivemos hoje: uma polícia corruptível, violenta, despreparada. Sim. Acredito que contribua, mas tenhamos cuidado com essas afirmações vazias e superficiais.
Esta matéria ilustra bem que o buraco é mais embaixo. Como a polícia mais bem paga pode ser a mais truculenta? Isso não iria contra os argumentos que estamos exaustos de ouvir e repetir? Será que é o contrário? Acho que isso nos ajuda a ver o que há de político nisso tudo. A força policial, bem sabemos, não está aqui para servir à comunidade e ajudar velhinhas indefesas. Sua função social é de manter a ordem. Ordem e progresso! Diz a bandeira. Choque de ordem! Diz o prefeito.
Mais do que regular costumes sociais, a polícia, o discurso da impunidade e os palanques sobre a questão da segurança pública, pretendem exercer um controle social sobre os costumes, e não só sobre eles. E não deve ser à toa que o fazem muito bem no DF, ainda mais em Brasília.
Vi cenas da polícia reprimindo - sim, a palavra é essa - reprimindo manifestações estudantis em Brasília com uso de violência. Eu digo de novo: violência é o nome e não truculência. Parece que a TV quer ser gentil com a polícia ou também tem medo de levar porrada, e diz que são truculentos. Se fossem "bandidos", "marginais", como diz a polícia, certamente os nomeariam como violentos. Mas a polícia quando pratica algum crime (enquanto instutuição, de farda e tudo. não estou falando de casos isolados praticados por policiais), não é considerada marginal.
Voltando ao controle social, a repressao sofrida por esses estudantes é antes de tudo política. É um cala a boca. Parece que voltamos ao golpe militar. ou melhor, não parece, porque hoje as pessoas praticamente não fazem manifestações e o que reivindicam não é tanto quanto antigamente...pode ser só um reitor corrupto ou algum figurão do planalto central. As lutas são outras mas a porrada continua e hoje é mais efetiva porque cala as bocas e cessa os pensamentos. Então, seguimos como marionetes nas paisagens urbanas, tendo medo dos meninos pobres, acreditamos que a ameaça vem dali. Pedimos policiamento nas ruas, prisão, segurança pública. Acreditamos que a punição é o melhor remédio. Execramos os que erram, somos inflexiveis e como os cavalos permitimos que nos botem ferraduras para dançarmos conforme a música e antolhos para não vermos o que querem esconder.
Ainda bem que ainda não acreditamos nessa lógica da punição dentro de casa ne? Ou vamos deixar de educar, amar, assistir, respaldar e acolher nossos filhos quando erram e tratá-los com práticas punitivas? Cinto? Chinelo?
É importante a gente falar sobre isso e pensar sobre isso....Choque de ordem? Câmeras de monitoramento nas ruas? Será essa a solução para o mal estar que vivemos nos dias de hoje??
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